Em 15 de julho de 2022, o berlinense Walter Benjamin completaria 130 anos. Um dos mais relevantes filósofos e pensadores de todos os tempos, o jovem Benjamin peregrinou por universidades na Alemanha e na Suíça, onde realizou doutorado em filosofia durante a Primeira Guerra Mundial. Nos anos 1920, teve estadias na Rússia, na Itália, além do período de exílio durante o regime nazista, que o levou a transitar entre Espanha, Dinamarca e, sobretudo, França. Não à toa a tônica sobre trânsitos, passagens, encruzilhadas, bem como reflexões em torno de linguagens, leituras, construções metafóricas são tão presentes em seus textos.
A professora e poeta Patrícia Lavelle, autora do recém-lançado Walter Benjamin metacrítico: uma poética do pensamento, uma coedição da Relicário e da editora PUC-Rio, apresenta algumas pílulas sobre a narrativa em Benjamin, tema-chave para estudos benjaminianos em áreas como linguagens, literatura, filosofia, memória e comunicação.
Inovador e debruçado sobre aspectos poucos explorados da obra de um dos pensadores mais instigantes e debatidos hoje, o livro Walter Benjamin metacrítico: uma poética do pensamento lança luz sobre a noção de infância em Benjamin, relacionada a alegorias e personagens femininas, e o lugar do feminino na literatura e filosofia benjaminiana.
Pílulas benjaminianas
>> contador de histórias x narrador
Em toda narração há uma instância interna ao texto que conduz a intriga. Ao evocar o contador de histórias, Benjamin não se refere a este elemento estruturante de qualquer texto narrativo. A figura arcaica do contador de histórias, cujas origens se encontram na tradição oral e na experiência tradicional transmissível, constitui uma representação sócio-histórica que funciona também como imagem.
>> o fim da narrativa?
Dizer que a arte de contar histórias está em vias de desaparecimento não significa afirmar o fim da possibilidade literária de narrar. Numa certa recepção do ensaio DerErzähler, traduzido como O Narrador, essa confusão aconteceu. Mas se esta fosse a tese de Benjamin, porque ele mesmo teria escrito contos? Minha opção por distinguir “contador de histórias” e “narrador” visa evitar a ambiguidade entre esta figura e a instância narrativa interna ao texto.
>> narrativa na produção ficcional de Benjamin
Em seus contos, Benjamin apresenta o contador de histórias como personagem. Em algumas de suas prosas de ficção mais significativas, a instância narrativa é múltipla. Encaixando narrações dentro de narrações, com frequência ele faz um narrador em primeira pessoa contracenar com um segundo narrador que incarna a figura tradicional do contador de histórias.
>> o contador de histórias como personagem de ficção
“O Lenço”, por exemplo, atribui a um marinheiro, o Capitão O., as características sociológicas do contador de histórias, tal como o ensaio sobre Leskov as apresenta. O personagem aparece assim como uma espécie de alegoria. Outro exemplo interessante encontra-se em “O anoitecer da viagem”, ambientado na Ibiza ainda quase selvagem do início dos anos 1930, onde Benjamin realizou longas estadias. Nele, o personagem Dom Rossello, comerciante de vinhos, conta histórias transmitindo costumes de sua ilha a um narrador forasteiro.
Patrícia Lavelle é poeta e professora do Departamento de Letras da PUC-Rio. Doutora em Filosofia na École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde também lecionou, foi professora convidada na École Normale Supérieure de Paris em 2019. Publicou, traduziu e organizou livros de ensaios no Brasil e na França, entre os quais sua tese de doutorado, Religion et histoire: sur le concept d’experience chez Walter Benjamin (Cerf, 2008). Realizou pesquisas pós-doutorais no Walter Benjamin-Archiv de Berlim, cujos resultados foram apresentados em ensaios incluídos no aparato crítico de duas edições francesas da Infância berlinense por volta de 1900 (L’Herne, 2012, e Hermann, 2014). Para a série francesa “Cahiers de l’Herne”, organizou o volume Walter Benjamin, que reúne textos inéditos do autor e de especialistas (L’Herne, 2013). Publicou O contador de histórias e outros textos (Hedra, 2018), os poemas de Bye bye Babel (7Letras, 2018, menção honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2016), a plaquete Migalhas metacríticas (7Letras, 2017) e co-organizou ONervo do poema. Antologia para Orides Fontela (Relicário, 2018).
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COLUNA GABINETE DE CURIOSIDADES
NARRATIVA EM WALTER BENJAMIN
por Patrícia Lavelle
Em 15 de julho de 2022, o berlinense Walter Benjamin completaria 130 anos. Um dos mais relevantes filósofos e pensadores de todos os tempos, o jovem Benjamin peregrinou por universidades na Alemanha e na Suíça, onde realizou doutorado em filosofia durante a Primeira Guerra Mundial. Nos anos 1920, teve estadias na Rússia, na Itália, além do período de exílio durante o regime nazista, que o levou a transitar entre Espanha, Dinamarca e, sobretudo, França. Não à toa a tônica sobre trânsitos, passagens, encruzilhadas, bem como reflexões em torno de linguagens, leituras, construções metafóricas são tão presentes em seus textos.
Inovador e debruçado sobre aspectos poucos explorados da obra de um dos pensadores mais instigantes e debatidos hoje, o livro Walter Benjamin metacrítico: uma poética do pensamento lança luz sobre a noção de infância em Benjamin, relacionada a alegorias e personagens femininas, e o lugar do feminino na literatura e filosofia benjaminiana.
Pílulas benjaminianas
>> contador de histórias x narrador
Em toda narração há uma instância interna ao texto que conduz a intriga. Ao evocar o contador de histórias, Benjamin não se refere a este elemento estruturante de qualquer texto narrativo. A figura arcaica do contador de histórias, cujas origens se encontram na tradição oral e na experiência tradicional transmissível, constitui uma representação sócio-histórica que funciona também como imagem.
>> o fim da narrativa?
Dizer que a arte de contar histórias está em vias de desaparecimento não significa afirmar o fim da possibilidade literária de narrar. Numa certa recepção do ensaio Der Erzähler, traduzido como O Narrador, essa confusão aconteceu. Mas se esta fosse a tese de Benjamin, porque ele mesmo teria escrito contos? Minha opção por distinguir “contador de histórias” e “narrador” visa evitar a ambiguidade entre esta figura e a instância narrativa interna ao texto.
Em seus contos, Benjamin apresenta o contador de histórias como personagem. Em algumas de suas prosas de ficção mais significativas, a instância narrativa é múltipla. Encaixando narrações dentro de narrações, com frequência ele faz um narrador em primeira pessoa contracenar com um segundo narrador que incarna a figura tradicional do contador de histórias.
>> o contador de histórias como personagem de ficção
“O Lenço”, por exemplo, atribui a um marinheiro, o Capitão O., as características sociológicas do contador de histórias, tal como o ensaio sobre Leskov as apresenta. O personagem aparece assim como uma espécie de alegoria. Outro exemplo interessante encontra-se em “O anoitecer da viagem”, ambientado na Ibiza ainda quase selvagem do início dos anos 1930, onde Benjamin realizou longas estadias. Nele, o personagem Dom Rossello, comerciante de vinhos, conta histórias transmitindo costumes de sua ilha a um narrador forasteiro.
Patrícia Lavelle é poeta e professora do Departamento de Letras da PUC-Rio. Doutora em Filosofia na École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde também lecionou, foi professora convidada na École Normale Supérieure de Paris em 2019. Publicou, traduziu e organizou livros de ensaios no Brasil e na França, entre os quais sua tese de doutorado, Religion et histoire: sur le concept d’experience chez Walter Benjamin (Cerf, 2008). Realizou pesquisas pós-doutorais no Walter Benjamin-Archiv de Berlim, cujos resultados foram apresentados em ensaios incluídos no aparato crítico de duas edições francesas da Infância berlinense por volta de 1900 (L’Herne, 2012, e Hermann, 2014). Para a série francesa “Cahiers de l’Herne”, organizou o volume Walter Benjamin, que reúne textos inéditos do autor e de especialistas (L’Herne, 2013). Publicou O contador de histórias e outros textos (Hedra, 2018), os poemas de Bye bye Babel (7Letras, 2018, menção honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2016), a plaquete Migalhas metacríticas (7Letras, 2017) e co-organizou O Nervo do poema. Antologia para Orides Fontela (Relicário, 2018).
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