MARGUERITE DURAS, UMA FILÓSOFA QUE NÃO ROMPE COM O MITO
por Cassiana Stephan
Tradutora do mais recente volume da Coleção Marguerite Duras, A doença da morte, a filósofa e professora da UFRJ Cassiana Stephan escreve sobre as vertentes de Duras percebidas neste romance. Cassiana é uma das convidadas para o encontro e lançamento de A doença da morte, na Janela Livraria Laranjeiras, no Rio, em 23 de junho.
Após 30 anos da morte de Marguerite Duras e 44 anos da primeira publicação de A doença da morte, a atualidade da autora e da obra permanecem notáveis. Nessa obra, Duras se mostra como uma historiadora extemporânea, como uma socióloga anarquista, como uma feminista que recorre, sem medo e culpa, à estética do abandono na busca por comunidade.
Era 2014 ou 2015, não me lembro muito bem. Deparei-me com a obra La communauté inavouable, de Maurice Blanchot. Fiquei intrigada com o segundo capítulo, chamado “La communauté des amants”. Foi ali que encontrei A doença da morte, de Marguerite Duras, e foi ali que decidi traduzir seu récit junto a Luciane Boganika.
Amores, dinâmicas e rupturas
Como afirma Blanchot, o título do récit de Duras manifesta ao mesmo tempo um tormento, um diagnóstico, uma sentença. Em A doença da morte, o amor é um tormento, um diagnóstico, uma sentença tanto do contrato vazio de comunidade quanto de sua ruptura, que se manifesta como a experiência singular da comunidade dos amantes.
O contrato substantiva a morte como uma condição da união mercadológica entre o si e o outro, ao passo que sua ruptura invoca o infinitivo atrelado ao ato de morrer como propulsor do enlace comunitário entre o si e o outro.
“Você diz que você quer experimentar, chorar ali, nesse lugar ali do mundo.
Ela sorri, ela pergunta: Você também me quereria?
Você diz: Sim. Eu ainda não conheço, eu gostaria de penetrar ali também. E tão violentamente quanto costumo fazer. Dizem que isso resiste ainda mais, que é um aveludado que resiste ainda mais do que o vazio.
Você escuta o barulho do mar que começa a subir. Essa estrangeira está ali na cama, no lugar dela, na poça branca dos lençóis brancos. Essa brancura torna a forma dela mais sombria, mais evidente do que seria uma evidência animal bruscamente deixada pela vida, do que seria aquela da morte.
Você volta ao quarto. Ela não se moveu na poça branca dos lençóis. Você olha essa aí que você jamais havia abordado, jamais, nem através das suas semelhantes nem através dela mesma.” [Trecho de A doença da morte]
De acordo com Blanchot, esse enlace é regido pela Afrodite ctônica ou subterrânea, que consagra aos amantes a exigência impossível da exposição de um para o outro numa dinâmica de incessante modificação.
Foi a partir de Sarah Kofman que Blanchot compreendeu a divindade que rege a comunidade dos amantes durassianos. A Afrodite ctônica, que assimila o ato de amar ao ato de morrer, aparece pela primeira vez em Comment s’en sortir?, de Kofman.
Até 2018, isso era tudo o que eu sabia: ainda não havia lido o livro de Kofman, à época obra de difícil acesso no Brasil.
Cartografias durassianas
Com esse mapa em mãos, em 2019 levei o trabalho de tradução ao Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, em Saint-Germain-la-Blanche-Herbe, uma comuna francesa situada no departamento de Calvados, na Normandia, mesma região em que Duras começou a escrever A doença da morte. No IMEC, mais especificamente na Abbaye d’Ardenne, pesquisei os arquivos de Marguerite Duras e de Sarah Kofman. Durante minha residência de pesquisa, pude acessar os rascunhos de Duras de A doença da morte, bem como os rascunhos de suas tentativas de adaptação do récit ao teatro. A adaptação foi publicada com o título Les yeux bleus cheveux noirs. Já o relato do processo de adaptação, crucial para compreendermos a complexa relação entre vida e obra que atravessa o récit, foi publicado sob o título La pute de la côte Normande.
A Medusa na ‘mitologia de Duras’
Em 2019, também li Comment s’en sortir?. Nessa ocasião, fui capaz de transformar uma intuição em hipótese de leitura e de tradução. Ao estudar o texto de Kofman, percebi que as análises de Medusa propostas por Jean-Pierre Vernant atravessavam tanto sua obra quanto a de Duras. O IMEC também comporta os arquivos de Jean-Pierre Vernant, onde encontrei diferentes interpretações sobre a Medusa.
“Os olhos estão sempre fechados. Pode-se dizer que ela repousa de uma fadiga milenar. Enquanto ela dorme você esqueceu a cor dos olhos dela, e mesmo do nome que você deu a ela no primeiro anoitecer. Então você descobre que não é a cor dos olhos que seria para todo o sempre a fronteira instransponível entre ela e você. Não, não a cor, você sabe que estaria entre o verde e o cinza […].” [Trecho de A doença da morte]
Adentrei, assim, no multiverso criado por Blanchot para Duras e atestei a face medúsica da Afrodite subterrânea de A doença da morte. Compreendi que a petrificação medúsica se deve ao assombro perante o radicalmente outro na exposição incessante entre os amantes, exposição que institui a comunidade na ruptura do contrato nupcial. Também percebi que os amantes medúsicos são paradoxais. Entrecobertos por uma luz sombria, manifestam-se, na paleta de cores de Duras, na mistura entre o preto e o branco, entre os olhos azuis e os cabelos pretos. Dessa mistura desponta um filtro verde tipicamente medúsico.
“Jovem, ela seria jovem. Nas suas roupas, nos seus cabelos, haveria um cheiro que se estagnaria, você procuraria qual seria, e você terminaria por nomeá-lo como você tem o saber de fazê-lo. Você diria: Um cheiro de heliotrópio e de cidra.” [Trecho de A doença da morte]
Nossa tradução se comprometeu, portanto, com a estranheza medúsica de A doença da morte, com a duplicidade do sentido atinente ao amor e ao ato de amar, à morte e ao ato de morrer; comprometeu-se com a paleta de cores que caracteriza a mitologia durassiana, com a extemporaneidade do cenário que encapsula os amantes em tormenta. Nossa tradução se comprometeu, ainda, com o cheiro de heliotrópio e de cidra que a Afrodite ctônica exala por entre as linhas escritas por Marguerite Duras, que neste livro se mostra, sobretudo, como uma filósofa que não rompe com o mito.
Cassiana Stephan é filósofa e professora de Filosofia na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação Lógica e Metafísica da UFRJ. Interassa-se pelo pensamento de mulheres e pelo pensamento feminista na filosofia e na literatura. Traduziu com Luciane Boganika A doença da morte, oitavo título da Coleção Marguerite Duras, projeto editorial de resgate e difusão da obra da autora francófona, que completa 5 anos em 2026.
2020, O ANO QUE NÃO COMEÇOU Por Elisa Ventura e Nélida Capela Em seu mais recente livro publicado no Brasil, Um mundo sem livros e sem livrarias?, Roger Chartier, a propósito do tema “livrarias”, diz que “é mais necessário do que nunca recordar a importância fundamental das livrarias no tecido das instituições que constituem o …
EGOÍSMO MEU Por Nara Vidal Há alguns anos, venho me dedicando a pequenas iniciativas que têm por objetivo divulgar literatura brasileira contemporânea onde moro. Não se trata de bondade ou altruísmo, já que são ações voluntárias. Minha relação com esse movimento é pautada no esforço da permanência de uma língua que é a minha …
Para ter acessos às páginas iniciais, ao sumário e às apresentações de Ricardo Domeneck e Guilherme Gontijo Flores para o livro “Batendo pasto”, de Maria Lúcia Alvim, clique aqui. Para comprar o livro, clique aqui.
21 notas cartográficas [sobre Nós somos muitas, de Pedro Meira Monteiro] por Patrícia Lino 1. Na capa, o pronome “nós” divide-se, entrecortado, como um slide deslizante, em 4. Assim como o deslizante advérbio “muitas”, que se desmonta, no sentido contrário, em 6. O verbo, que não desliza nunca, une “nós” e “muitas”. Do lado esquerdo, …
COLUNA GABINETE DE CURIOSIDADES
MARGUERITE DURAS, UMA FILÓSOFA QUE NÃO ROMPE COM O MITO
por Cassiana Stephan
Tradutora do mais recente volume da Coleção Marguerite Duras, A doença da morte, a filósofa e professora da UFRJ Cassiana Stephan escreve sobre as vertentes de Duras percebidas neste romance. Cassiana é uma das convidadas para o encontro e lançamento de A doença da morte, na Janela Livraria Laranjeiras, no Rio, em 23 de junho.
Após 30 anos da morte de Marguerite Duras e 44 anos da primeira publicação de A doença da morte, a atualidade da autora e da obra permanecem notáveis. Nessa obra, Duras se mostra como uma historiadora extemporânea, como uma socióloga anarquista, como uma feminista que recorre, sem medo e culpa, à estética do abandono na busca por comunidade.
Era 2014 ou 2015, não me lembro muito bem. Deparei-me com a obra La communauté inavouable, de Maurice Blanchot. Fiquei intrigada com o segundo capítulo, chamado “La communauté des amants”. Foi ali que encontrei A doença da morte, de Marguerite Duras, e foi ali que decidi traduzir seu récit junto a Luciane Boganika.
Amores, dinâmicas e rupturas
Como afirma Blanchot, o título do récit de Duras manifesta ao mesmo tempo um tormento, um diagnóstico, uma sentença. Em A doença da morte, o amor é um tormento, um diagnóstico, uma sentença tanto do contrato vazio de comunidade quanto de sua ruptura, que se manifesta como a experiência singular da comunidade dos amantes.
O contrato substantiva a morte como uma condição da união mercadológica entre o si e o outro, ao passo que sua ruptura invoca o infinitivo atrelado ao ato de morrer como propulsor do enlace comunitário entre o si e o outro.
“Você diz que você quer experimentar, chorar ali, nesse lugar ali do mundo.
Ela sorri, ela pergunta: Você também me quereria?
Você diz: Sim. Eu ainda não conheço, eu gostaria de penetrar ali também. E tão violentamente quanto costumo fazer. Dizem que isso resiste ainda mais, que é um aveludado que resiste ainda mais do que o vazio.
Você escuta o barulho do mar que começa a subir. Essa estrangeira está ali na cama, no lugar dela, na poça branca dos lençóis brancos. Essa brancura torna a forma dela mais sombria, mais evidente do que seria uma evidência animal bruscamente deixada pela vida, do que seria aquela da morte.
Você volta ao quarto. Ela não se moveu na poça branca dos lençóis. Você olha essa aí que você jamais havia abordado, jamais, nem através das suas semelhantes nem através dela mesma.”
[Trecho de A doença da morte]
Foi a partir de Sarah Kofman que Blanchot compreendeu a divindade que rege a comunidade dos amantes durassianos. A Afrodite ctônica, que assimila o ato de amar ao ato de morrer, aparece pela primeira vez em Comment s’en sortir?, de Kofman.
Até 2018, isso era tudo o que eu sabia: ainda não havia lido o livro de Kofman, à época obra de difícil acesso no Brasil.
Cartografias durassianas
Com esse mapa em mãos, em 2019 levei o trabalho de tradução ao Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, em Saint-Germain-la-Blanche-Herbe, uma comuna francesa situada no departamento de Calvados, na Normandia, mesma região em que Duras começou a escrever A doença da morte. No IMEC, mais especificamente na Abbaye d’Ardenne, pesquisei os arquivos de Marguerite Duras e de Sarah Kofman. Durante minha residência de pesquisa, pude acessar os rascunhos de Duras de A doença da morte, bem como os rascunhos de suas tentativas de adaptação do récit ao teatro. A adaptação foi publicada com o título Les yeux bleus cheveux noirs. Já o relato do processo de adaptação, crucial para compreendermos a complexa relação entre vida e obra que atravessa o récit, foi publicado sob o título La pute de la côte Normande.
A Medusa na ‘mitologia de Duras’
Em 2019, também li Comment s’en sortir?. Nessa ocasião, fui capaz de transformar uma intuição em hipótese de leitura e de tradução. Ao estudar o texto de Kofman, percebi que as análises de Medusa propostas por Jean-Pierre Vernant atravessavam tanto sua obra quanto a de Duras. O IMEC também comporta os arquivos de Jean-Pierre Vernant, onde encontrei diferentes interpretações sobre a Medusa.
“Os olhos estão sempre fechados. Pode-se dizer que ela repousa de uma fadiga milenar. Enquanto ela dorme você esqueceu a cor dos olhos dela, e mesmo do nome que você deu a ela no primeiro anoitecer. Então você descobre que não é a cor dos olhos que seria para todo o sempre a fronteira instransponível entre ela e você. Não, não a cor, você sabe que estaria entre o verde e o cinza […].”
[Trecho de A doença da morte]
Adentrei, assim, no multiverso criado por Blanchot para Duras e atestei a face medúsica da Afrodite subterrânea de A doença da morte. Compreendi que a petrificação medúsica se deve ao assombro perante o radicalmente outro na exposição incessante entre os amantes, exposição que institui a comunidade na ruptura do contrato nupcial. Também percebi que os amantes medúsicos são paradoxais. Entrecobertos por uma luz sombria, manifestam-se, na paleta de cores de Duras, na mistura entre o preto e o branco, entre os olhos azuis e os cabelos pretos. Dessa mistura desponta um filtro verde tipicamente medúsico.
“Jovem, ela seria jovem. Nas suas roupas, nos seus cabelos, haveria um cheiro que se estagnaria, você procuraria qual seria, e você terminaria por nomeá-lo como você tem o saber de fazê-lo. Você diria: Um cheiro de heliotrópio e de cidra.”
[Trecho de A doença da morte]
Nossa tradução se comprometeu, portanto, com a estranheza medúsica de A doença da morte, com a duplicidade do sentido atinente ao amor e ao ato de amar, à morte e ao ato de morrer; comprometeu-se com a paleta de cores que caracteriza a mitologia durassiana, com a extemporaneidade do cenário que encapsula os amantes em tormenta. Nossa tradução se comprometeu, ainda, com o cheiro de heliotrópio e de cidra que a Afrodite ctônica exala por entre as linhas escritas por Marguerite Duras, que neste livro se mostra, sobretudo, como uma filósofa que não rompe com o mito.
Cassiana Stephan é filósofa e professora de Filosofia na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação Lógica e Metafísica da UFRJ. Interassa-se pelo pensamento de mulheres e pelo pensamento feminista na filosofia e na literatura. Traduziu com Luciane Boganika A doença da morte, oitavo título da Coleção Marguerite Duras, projeto editorial de resgate e difusão da obra da autora francófona, que completa 5 anos em 2026.
Conheça a Coleção Marguerite Duras
Posts relacionados
COLUNA LIVRE
2020, O ANO QUE NÃO COMEÇOU Por Elisa Ventura e Nélida Capela Em seu mais recente livro publicado no Brasil, Um mundo sem livros e sem livrarias?, Roger Chartier, a propósito do tema “livrarias”, diz que “é mais necessário do que nunca recordar a importância fundamental das livrarias no tecido das instituições que constituem o …
COLUNA LIVRE
EGOÍSMO MEU Por Nara Vidal Há alguns anos, venho me dedicando a pequenas iniciativas que têm por objetivo divulgar literatura brasileira contemporânea onde moro. Não se trata de bondade ou altruísmo, já que são ações voluntárias. Minha relação com esse movimento é pautada no esforço da permanência de uma língua que é a minha …
Apresentações de Ricardo Domeneck e Guilherme Gontijo Flores para “Batendo pasto”, de Maria Lúcia Alvim
Para ter acessos às páginas iniciais, ao sumário e às apresentações de Ricardo Domeneck e Guilherme Gontijo Flores para o livro “Batendo pasto”, de Maria Lúcia Alvim, clique aqui. Para comprar o livro, clique aqui.
COLUNA GABINETE DE CURIOSIDADES
21 notas cartográficas [sobre Nós somos muitas, de Pedro Meira Monteiro] por Patrícia Lino 1. Na capa, o pronome “nós” divide-se, entrecortado, como um slide deslizante, em 4. Assim como o deslizante advérbio “muitas”, que se desmonta, no sentido contrário, em 6. O verbo, que não desliza nunca, une “nós” e “muitas”. Do lado esquerdo, …