Brinquei de aula muitas vezes na vida. Brinquei também de sorteio, jogando cartinhas para o alto e pegando uma delas no ar para ler ao meu público imaginário. Não era influência da Xuxa. Era por conta da apresentadora de um programa local, de quem provavelmente quase ninguém se lembra mais. Ou estou muito enganada. Brinquei que tinha um quadro de giz, única possibilidade daqueles tempos, e que havia diante de mim uma turma de alunos e alunas jovens, em silêncio, prestando atenção a tudo o que eu dizia.
Às vezes, para atuar bem como professora, eu pedia silêncio, chamava a atenção de um indisciplinado ou repetia a explicação em compasso mais lento. Mais tarde, sem saber direito como, me tornei mesmo professora, e tudo isso aconteceu e não aconteceu.
Expectativa x Realidade
Não sei quantos professores/as sonharam em ser o que são. Uma parte deles/as certamente tem a sensação de que “caiu de paraquedas” na profissão. Aliás, por mais desvalorizada que ela seja, muita gente que não logra êxito em outras atividades vem parar… Adivinhem onde? Lembro-me bem de algumas poucas pessoas me aconselhando, décadas atrás, quando anunciei que me inscreveria no vestibular para Letras: “Bom curso para mulher”, “É complicado, mas não falta emprego”, “Você ao menos não morrerá de fome”, embora a professora de Português do meu colégio tenha dito, com cara de tristeza: “Não faça isso, você é tão inteligente…”. Bem, eu fiz. E não me casei com nenhum marido provedor, como foi o caso dela e de tantas outras mulheres. A piada, aliás, era também esta: “Curso espera marido”.
Fato é que a formação em Letras costuma ser consistente e relevante. Nunca me arrependi nem um milímetro, embora, na época, os currículos das melhores universidades pouco tratassem da formação da professora que eu deveria ser. Tive uma formação teórica de alto nível e pouca intenção de chão de escola. Quando aterrissei numa, tive vontade de dar ré em alta velocidade. Um início de carreira tortuoso e cheio do que chamam hoje, eufemisticamente, de “desafios” acaba por afastar as pessoas que, eventualmente, poderiam se tornar bons e boas docentes. Conheço muita gente assim. E muita gente de outros jeitos: que mudou de carreiras mais rentáveis e prestigiosas para finalmente estar onde queria (ser professor); que “caiu de paraquedas”, sim, mas se acomodou bem à nova tarefa; que entendeu que, num país instável como o nosso, a segurança mínima de quem estuda e não desiste tem relação direta com as pessoas que estão ali aferradas ao trabalho.
Evitei palavras como “missão”, “vocação”, “doação” e outras tantas que ajudam a conformar um discurso terrível para quem trabalha nas escolas. Professores/as são profissionais qualificados (e queremos que sejam). Isso fica mais claro à medida que sobe o grau de escolarização, tanto das pessoas quanto de onde elas atuam. Não é, porém, socialmente tão claro que a maioria de mulheres que atua nas séries iniciais mereça ótimas condições de trabalho e um ótimo salário (evito também o perigoso “digno”). Esses são itens necessários e justos no ensino médio. Na educação superior, isso se evidencia, dado o prestígio social que ser professor de faculdade ainda tem, muito embora as condições gerais, inclusive dos concursos e das carreiras, tenham piorado nas últimas décadas.
Sozinhez
Professor e professora não vivem para doar, sobretudo sua energia vital, embora possam ser muito dedicados e sérios. Há infinitos exemplos de gente muito relevante em seus contextos locais, mesmo regionais, que segura firme uma juventude que sofre todo tipo de violência ou que se sente perdida num mundo de sozinhez e falta de referências seguras, inclusive entre os mais ricos.
Durante a pandemia, ficou mais clara a quantidade de espaços que a escola ocupa nas vidas das famílias: lugar seguro onde deixar os filhos, alimentação, higiene, proteção, ocupação, atividade física, aprendizagem etc. Isso tem implicações para os muitos papéis que um/a professor/a precisa desempenhar, inclusive fora de suas atribuições técnicas principais.
Por tudo isso, e não só, a relação que cada vez mais gente estabelece com os/as docentes, para além dos salários insuficientes, é não só injusta, mas terrível para o futuro da profissão e dos próprios efeitos da educação.
Quem quer ser professor?
Faça-se essa pergunta numa sala de aula de terceira série do ensino médio. Mais alguns anos e pesquise-se novamente: alguns serão. A vida não segue o rumo que planejamos do alto da nossa arrogância juvenil, menos ainda das instabilidades e impossibilidades que o contexto em que sempre vivemos permitirá. A trajetória de cada pessoa irá levá-la a algum ponto, nem sempre o lá atrás desejado e desenhado. O desejo inicial de ser professora não garante uma vida docente de boa performance, assim como a chegada de um paraquedista pelos ares não quer dizer que essa pessoa vá ser má profissional.
Onde reside a gana de ser um/a educador/a influente?
No hoje, na dedicação que se constrói hoje, mas também na recompensa justa por um trabalho que exige muito mais horas do que a maioria das profissões. Muito mais estudo continuado do que a maior parte das formações. Muito mais estômago, paciência e energia do que várias atividades. Muito mais contato e interação do que grande parte dos empregos.
É uma graça quando a piadinha da família, todos se achando muito superiores, é sobre os supostos 45 dias de férias do/a professor/a. Pelo menos um terço disso é gasto na preparação de cursos e aulas para o próximo semestre, enquanto outro tanto é compensação pelas muitas horas não pagas (nem valorizadas) de trabalho diário, contando finais de semana e feriados. Pagar é também valorizar. Valha o discurso sobre a nobreza da profissão nesta época do ano, mas que ele se estenda por todo o tempo.
Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. Autora de livros de poesia, crônica, conto e infantojuvenis, é professora da rede federal de ensino e pesquisadora do livro e da edição. Pela Relicário, publicouÁlbum (2018).
Nesta coluna Alfaiataria de outubro, Adriana Lisboa nos surpreende com um belo presente de aniversário pelos 8 anos da Relicário! Ela nos brinda com poesia inédita –– um verdadeiro deleite –– e divide conosco seu sentimento por fazer parte de nossa história e de nosso catálogo, já por incríveis três anos: dois livros de poesia, …
ROUPA, MEMÓRIA por Ana Elisa Ribeiro Era uma blusa de frio com listas azuis e marrons. Lembro que tinha um toque meio seco, mas era de lã ou coisa parecida, aquecia bem, e eu só a usava entre junho e julho, no inverno de Belo Horizonte. Em agosto já parecia demais. Na foto, eu …
MEMÓRIAS DE UM LIVREIRO por José Luiz Tahan, da Realejo Livros Nunca passou pela minha cabeça que a sequência de recados errados me levariam a esta vida vivida numa livraria. Há trinta e poucos anos eu era um garoto que gostava de desenhar e quando decidi buscar um emprego não tinha muita ideia do …
MINOTAURO por Adriana Lisboa Minha culpa é mítica. O corpo pode ser de homem, mas eu sou, essencialmente, um touro. Ou será o contrário? Tenho no topo da cabeça este par de chifres cujo peso estorvaria um homem normal, mais um par de ventas largas e pelos que me recobrem todo o rosto, do pescoço …
COLUNA MARCA PÁGINA
Quem quer ser professor?
Ana Elisa Ribeiro
Brinquei de aula muitas vezes na vida. Brinquei também de sorteio, jogando cartinhas para o alto e pegando uma delas no ar para ler ao meu público imaginário. Não era influência da Xuxa. Era por conta da apresentadora de um programa local, de quem provavelmente quase ninguém se lembra mais. Ou estou muito enganada. Brinquei que tinha um quadro de giz, única possibilidade daqueles tempos, e que havia diante de mim uma turma de alunos e alunas jovens, em silêncio, prestando atenção a tudo o que eu dizia.
Às vezes, para atuar bem como professora, eu pedia silêncio, chamava a atenção de um indisciplinado ou repetia a explicação em compasso mais lento. Mais tarde, sem saber direito como, me tornei mesmo professora, e tudo isso aconteceu e não aconteceu.
Expectativa x Realidade
Não sei quantos professores/as sonharam em ser o que são. Uma parte deles/as certamente tem a sensação de que “caiu de paraquedas” na profissão. Aliás, por mais desvalorizada que ela seja, muita gente que não logra êxito em outras atividades vem parar… Adivinhem onde? Lembro-me bem de algumas poucas pessoas me aconselhando, décadas atrás, quando anunciei que me inscreveria no vestibular para Letras: “Bom curso para mulher”, “É complicado, mas não falta emprego”, “Você ao menos não morrerá de fome”, embora a professora de Português do meu colégio tenha dito, com cara de tristeza: “Não faça isso, você é tão inteligente…”. Bem, eu fiz. E não me casei com nenhum marido provedor, como foi o caso dela e de tantas outras mulheres. A piada, aliás, era também esta: “Curso espera marido”.
Fato é que a formação em Letras costuma ser consistente e relevante. Nunca me arrependi nem um milímetro, embora, na época, os currículos das melhores universidades pouco tratassem da formação da professora que eu deveria ser. Tive uma formação teórica de alto nível e pouca intenção de chão de escola. Quando aterrissei numa, tive vontade de dar ré em alta velocidade. Um início de carreira tortuoso e cheio do que chamam hoje, eufemisticamente, de “desafios” acaba por afastar as pessoas que, eventualmente, poderiam se tornar bons e boas docentes. Conheço muita gente assim. E muita gente de outros jeitos: que mudou de carreiras mais rentáveis e prestigiosas para finalmente estar onde queria (ser professor); que “caiu de paraquedas”, sim, mas se acomodou bem à nova tarefa; que entendeu que, num país instável como o nosso, a segurança mínima de quem estuda e não desiste tem relação direta com as pessoas que estão ali aferradas ao trabalho.
Evitei palavras como “missão”, “vocação”, “doação” e outras tantas que ajudam a conformar um discurso terrível para quem trabalha nas escolas. Professores/as são profissionais qualificados (e queremos que sejam). Isso fica mais claro à medida que sobe o grau de escolarização, tanto das pessoas quanto de onde elas atuam. Não é, porém, socialmente tão claro que a maioria de mulheres que atua nas séries iniciais mereça ótimas condições de trabalho e um ótimo salário (evito também o perigoso “digno”). Esses são itens necessários e justos no ensino médio. Na educação superior, isso se evidencia, dado o prestígio social que ser professor de faculdade ainda tem, muito embora as condições gerais, inclusive dos concursos e das carreiras, tenham piorado nas últimas décadas.
Sozinhez
Professor e professora não vivem para doar, sobretudo sua energia vital, embora possam ser muito dedicados e sérios. Há infinitos exemplos de gente muito relevante em seus contextos locais, mesmo regionais, que segura firme uma juventude que sofre todo tipo de violência ou que se sente perdida num mundo de sozinhez e falta de referências seguras, inclusive entre os mais ricos.
Durante a pandemia, ficou mais clara a quantidade de espaços que a escola ocupa nas vidas das famílias: lugar seguro onde deixar os filhos, alimentação, higiene, proteção, ocupação, atividade física, aprendizagem etc. Isso tem implicações para os muitos papéis que um/a professor/a precisa desempenhar, inclusive fora de suas atribuições técnicas principais.
Por tudo isso, e não só, a relação que cada vez mais gente estabelece com os/as docentes, para além dos salários insuficientes, é não só injusta, mas terrível para o futuro da profissão e dos próprios efeitos da educação.
Quem quer ser professor?
Faça-se essa pergunta numa sala de aula de terceira série do ensino médio. Mais alguns anos e pesquise-se novamente: alguns serão. A vida não segue o rumo que planejamos do alto da nossa arrogância juvenil, menos ainda das instabilidades e impossibilidades que o contexto em que sempre vivemos permitirá. A trajetória de cada pessoa irá levá-la a algum ponto, nem sempre o lá atrás desejado e desenhado. O desejo inicial de ser professora não garante uma vida docente de boa performance, assim como a chegada de um paraquedista pelos ares não quer dizer que essa pessoa vá ser má profissional.
Onde reside a gana de ser um/a educador/a influente?
No hoje, na dedicação que se constrói hoje, mas também na recompensa justa por um trabalho que exige muito mais horas do que a maioria das profissões. Muito mais estudo continuado do que a maior parte das formações. Muito mais estômago, paciência e energia do que várias atividades. Muito mais contato e interação do que grande parte dos empregos.
É uma graça quando a piadinha da família, todos se achando muito superiores, é sobre os supostos 45 dias de férias do/a professor/a. Pelo menos um terço disso é gasto na preparação de cursos e aulas para o próximo semestre, enquanto outro tanto é compensação pelas muitas horas não pagas (nem valorizadas) de trabalho diário, contando finais de semana e feriados. Pagar é também valorizar. Valha o discurso sobre a nobreza da profissão nesta época do ano, mas que ele se estenda por todo o tempo.
Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. Autora de livros de poesia, crônica, conto e infantojuvenis, é professora da rede federal de ensino e pesquisadora do livro e da edição. Pela Relicário, publicou Álbum (2018).
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COLUNA LIVRE
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