Convidada Cidinha da Silva
Entrevista por Adriana Ferreira Silva, Bianca Santana, Eliana Alves Cruz, Fabiana Cozza, Geni Nuñez, Maria Mazarello Rodrigues e Taiasmin Ohnmacht.
A autora Cidinha da Silva é a convidada da vez para esse novo encontro na nossa Roda de Conversa Virtual no Blog da Relicário. Nesta conversa, Cidinha está rodeada por sete entrevistadoras: a jornalista Adriana Ferreira Silva; a escritora e jornalista Bianca Santana; a autora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz; a cantora Fabiana Cozza; a escritora Geni Nuñez; a editora Maria Mazarello Rodrigues e a escritora Taiasmin Ohnmacht.
Ao cruzar os caminhos entre a literatura, o jornalismo, a música e a edição, elas aprofundam o debate em torno da chegança do livro Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros em uma turnê de eventos. Cidinha já passou por Belo Horizonte e Fortaleza para conversas de apresentação do livro e ainda teremos pela frente uma série de eventos em São Paulo, Porto Alegre, Goiás, entre outras paragens.
Adriana Ferreira Silva: Uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro mostrou um acréscimo de 3 milhões de consumidores de livros em 2025. Deste total, 61% são mulheres, com as mulheres negras da classe C representando o grupo numericamente mais significativo nesse universo. Qual o papel da literatura feita por mulheres pretas nesse contexto?
Cidinha da Silva: Sobre o preâmbulo da pergunta, Adriana, cumpre destacar que a pesquisa não nos informa que tipo de livro essas mulheres estão lendo. Não sabemos, mas, por outro lado, temos conhecimento pelo resultado de outras pesquisas que os autores continuam vendendo mais do que as autoras, e sabemos também que os livros de colorir têm sido os grandes campeões de vendas. Assim, pode configurar um exercício de lógica factível supor que o público crescente de mulheres mapeado pode estar comprando livros para colorir. Nesse caso, não acho problemático inferir que isso pode ser reflexo do nível de estresse dessas mulheres: tem gente que desestressa praticando atividade física, de lazer, artística ou cultural; outras pessoas já preferem fazer uso de substâncias, outras ainda alimentam hobbies, outras são mães e pais de animais, de plantas, e tem gente que colore, ou, se não chega a colorir, compra livros para essa finalidade ou os ganha de presente. Desse modo, não consigo ainda pensar como a literatura escrita por mulheres está refletida nos dados dessa pesquisa, mas consigo, sim, pensar que a literatura produzida por nós, mulheres negras, anima, de verdade, aquilo que tem sido discutido como bibliodiversidade, algo que fomenta a saúde do mercado editorial e livreiro. Falta ainda tratar essa literatura por gênero literário, ultrapassando o bloco monolítico escritoras negras, pois somos cronistas, contistas, romancistas, ensaístas, poetas, quadrinistas e nossos livros precisam ser dispostos nas prateleiras das livrarias por gênero literário.
Eliana Alves Cruz: Sobre essa fúria que nos invade e que a gente extravasa por tantos motivos: como fazer dela um motor para escrever e como impedir que ela também se torne um bloqueio justamente para criar a nossa literatura?
CS: Eliana, penso que cada pessoa precisa compreender como esses afetos primordiais como a fúria, por exemplo, atuam em si mesma. Tem gente que escreverá na força desse ímpeto, outras pessoas acharão formas de deixar a combustão acontecer, para depois racionalizar o processo e escrever. Existem outras alternativas possíveis e legítimas. A meu sentir, o mais importante é compreender o papel da fúria (quando ela existe) no processo particular de cada pessoa que vai decantá-la, transmutá-la e tratará de atribuir sentidos a ela no processo criativo.
Taiasmin Ohnmacht: No livro Só bato em cachorro grande, logo no início, a psicanalista Isildinha Baptista Nogueira aparece nos agradecimentos. Cidinha, qual a inspiração dessa psicanalista? E que diálogos seu texto estabelece com a psicanálise?
CS: Taiasmin, eu dedico o livro a Isildinha e também a outras mulheres negras fundamentais no planeamento do solo para a gente pisar e existir. Não conheço pessoalmente duas delas, a Isildinha Baptista Nogueira e a Denise Ferreira da Silva, mas, obviamente, me beneficio do impacto do pensamento delas sobre o Brasil e sobre nós. Não tenho bagagem significativa de leitura psicanalítica, apenas acho muito importante ponderar e mensurar as questões que nos estruturam como seres únicos, atravessados pelos grandes temas da humanidade, incluindo a política. Em relação à influência específica da Isildinha sobre mim, penso que ela tem uma nitidez de raciocínio rara, expressa em linguagem simples que contempla um pensamento muito sofisticado. Gosto demais também da forma como ela discute a política e suas interfaces com a nossa cabeça e emoções, digamos assim.
Fabiana Cozza: Em que momento mulheres negras engravidam dessa travessia que é tornarem-se borboletas?
CS: Fabi, o que mais me interessa no processo da borboleta trazido para o título do livro é a ideia de movimento e de transformação que empresta dinamismo à vida. A gente se transforma por instinto mesmo de sobrevivência, me parece. Por sua vez, tenho a sensação de que a consciência da fúria como algo transformador deve acontecer depois de algumas décadas vividas, como escrevo em um dos ensaios do livro, aquele que trata de como escrevi o título: “Talvez tenhamos alcançado o estágio da fúria como forma de libertação do cansaço das batalhas incessantes para nos livrarmos das imposições à nossa existência plena”.
Bianca Santana: Se você pudesse desmontar um único dispositivo de racialidade do mercado editorial, considerando os dispositivos de racialidade que estruturam o mercado literário, qual é hoje o mecanismo mais eficaz em limitar a circulação e o reconhecimento de escritoras negras?
CS: Bianca, creio que seja o dispositivo que quer nos transformar em um bloco monolítico, aquele que desconsidera nossas particularidades como seres criativos, que nos nega o direito à alteridade. Ele é extremamente eficaz porque até mesmo muitas de nós nos diluímos nos papeis de eternas educadoras da branquitude, de produtoras de uma literatura que tem papéis definidos pelos outros, como escrevi no ensaio “Literatura de autoria negra: expressão artística disponível para processos educacionais”: “Nos debates sobre literatura, é recorrente que autoras e autores negros sejam interpelados com perguntas que os forçam a explicar o que escreveram, e não como escreveram. Trata-se de uma imposição de decodificação do próprio fazer artístico, como se dissesse: ‘a arte de vocês tem, antes de tudo, uma função didática e militante, mais do que propriamente estética’. Há, portanto, um movimento que vem de fora para dentro (da branquitude para os negros). Por outro lado, existe também um movimento de dentro para fora. Muitas colegas negras acabam assumindo o lugar esperado e se transformam em eternas (re)educadoras da branquitude, que costuma tratar a literatura negra como exótica ou, no melhor dos casos, como ferramenta de letramento em certos temas. Algumas autoras passam a entender que este é um papel a ser cumprido: educar incansavelmente, em resposta aos requerimentos preguiçosos da branquitude Em ambos os casos de atendimento à pressão – de fora para dentro e de dentro para fora –, o resultado é o mesmo: a fruição negra é prejudicada”.
Geni Nuñez: Amada Cidinha, ao ler suas obras, é possível sentir e perceber o gosto que você tem pela escrita e o quanto esse prazer também nos contagia na leitura, seja pela qualidade dos debates, seja pela beleza com que são conduzidos. Suas palavras me lembram os artesanatos de nossos povos, cujo acabamento e finalização das peças são também o próprio início delas. Queria ouvir mais de você sobre esse processo de lapidação das palavras e sobre o seu burilamento literário em Borboletas furiosas.
CS: Geni, obrigada pelas boas palavras, sabemos a força que elas têm. O preâmbulo da sua pergunta contém a resposta da questão, ou seja, citando um pensador que você gosta muito, o Antônio Bispo: “Nós somos o começo, o meio e o começo”, não é assim? Um elemento central do Borboletas furiosas é a minha técnica de coser explicitando o movimento da costura, mostrando como teço cada ponto, como arremato as ideias na forma de pensamento vivo e dinâmico, expresso pelas melhores palavras que consigo garimpar. Os ensaios “Armadilhas da representatividade”, “Estranhas propostas de trabalho sem remuneração”, “Maria Firmina dos Reis e a solidão de estar à frente do seu próprio tempo”, “Sobre a natureza dos convites para publicação”, “Um estudo de título: o caso das borboletas furiosas” e “Ebó de boca” são revelações detalhadas dos meus processos particulares de urdidura do texto.
Maria Mazarello Rodrigues: Qual sugestão você daria para as novas escritoras conseguirem publicar por diferentes editoras? Você é a pessoa ideal para responder essa questão.
CS: A primeira coisa é investir na qualificação do texto: escrever, reescrever, submeter o texto a leituras críticas, ter escuta ativa para dialogar com as críticas, incorporá-las, quando for o caso. A segunda é perguntar a si mesma o que você deseja alcançar com a publicação. Para isso, a pessoa deve traçar metas e objetivos, e tentar construir uma estratégia para atingi-los. Mesmo nos casos em que a escritora quer migrar do total desconhecimento para o estrelato num estalar de dedos, é preciso ter consciência de quem se é e daquilo que se quer. Vejam que essas são dimensões de apaziguamento da pessoa consigo mesma, porque é preciso considerar que uma editora não resolve essas questões, elas são exclusivamente de quem escreve. Depois de desenvolvida essa consciência do trabalho que se tem em mãos para apresentar às editoras e do se pretende com ele, há que pesquisar o perfil das editoras, seu catálogo, suas estratégias editoriais, período de submissão de originais, política de publicação, como a editora gosta de ser contactada, tempo de resposta aos pleitos etc., para averiguar se a editora, eventualmente, terá interesse no tipo de texto produzido pela autora. Não adianta apresentar um livro de poemas para uma editora que se interessa apenas por prosa, ou produzir um quadrinho inteiro que você julga fantástico, mas a editora de quadrinhos pela qual você deseja publicar tem por norma avaliar quatro páginas iniciais e depois disso conversa com roteirista e ilustrador/a para dizer se podem prosseguir ou se precisariam mudar o caminho para ter chance. Nesses 20 anos que caminhamos juntas, Mazza, desde a publicação do meu primeiro livro, em 2006, você pôde presenciar o quanto aprendi sobre a relação autora/editoras, o quanto compreendi que cada casa editorial é uma empresa que enfrenta questões diversas de sobrevivência econômica (principalmente as de pequeno e médio porte) e que, para se posicionar no mercado precisa ter planejamento e estratégia. Entendi que o plano de negócio da editora não se movimentará ao sabor dos nossos desejos de publicação (gênero da obra, momento mais adequado para publicar, tiragem, estratégia de distribuição). É preciso buscar esses entendimentos para que a gente não se ache injustiçada por não ser publicada exatamente no momento que desejamos.
‘NUM PAÍS MACHUCADO, CRIAR É UM ATO DE CURA’ Convidada Claudete Daflon Em entrevista para o Blog da Relicário, a educadora e ensaísta Claudete Daflon disseca as dores de um país inflamado. Ao propor, sob a perspectiva decolonial, tornar a dor matéria-prima e linguagem, Claudete dialoga com um elenco de autoras, poetas, escritores, pensadores …
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COLUNA GABINETE DE CURIOSIDADES
RODA DE CONVERSA VIRTUAL
Convidada Cidinha da Silva
Entrevista por Adriana Ferreira Silva, Bianca Santana, Eliana Alves Cruz, Fabiana Cozza,
Geni Nuñez, Maria Mazarello Rodrigues e Taiasmin Ohnmacht.
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Ao cruzar os caminhos entre a literatura, o jornalismo, a música e a edição, elas aprofundam o debate em torno da chegança do livro Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros em uma turnê de eventos. Cidinha já passou por Belo Horizonte e Fortaleza para conversas de apresentação do livro e ainda teremos pela frente uma série de eventos em São Paulo, Porto Alegre, Goiás, entre outras paragens.
Adriana Ferreira Silva: Uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro mostrou um acréscimo de 3 milhões de consumidores de livros em 2025. Deste total, 61% são mulheres, com as mulheres negras da classe C representando o grupo numericamente mais significativo nesse universo. Qual o papel da literatura feita por mulheres pretas nesse contexto?
Cidinha da Silva: Sobre o preâmbulo da pergunta, Adriana, cumpre destacar que a pesquisa não nos informa que tipo de livro essas mulheres estão lendo. Não sabemos, mas, por outro lado, temos conhecimento pelo resultado de outras pesquisas que os autores continuam vendendo mais do que as autoras, e sabemos também que os livros de colorir têm sido os grandes campeões de vendas. Assim, pode configurar um exercício de lógica factível supor que o público crescente de mulheres mapeado pode estar comprando livros para colorir. Nesse caso, não acho problemático inferir que isso pode ser reflexo do nível de estresse dessas mulheres: tem gente que desestressa praticando atividade física, de lazer, artística ou cultural; outras pessoas já preferem fazer uso de substâncias, outras ainda alimentam hobbies, outras são mães e pais de animais, de plantas, e tem gente que colore, ou, se não chega a colorir, compra livros para essa finalidade ou os ganha de presente. Desse modo, não consigo ainda pensar como a literatura escrita por mulheres está refletida nos dados dessa pesquisa, mas consigo, sim, pensar que a literatura produzida por nós, mulheres negras, anima, de verdade, aquilo que tem sido discutido como bibliodiversidade, algo que fomenta a saúde do mercado editorial e livreiro. Falta ainda tratar essa literatura por gênero literário, ultrapassando o bloco monolítico escritoras negras, pois somos cronistas, contistas, romancistas, ensaístas, poetas, quadrinistas e nossos livros precisam ser dispostos nas prateleiras das livrarias por gênero literário.
Eliana Alves Cruz: Sobre essa fúria que nos invade e que a gente extravasa por tantos motivos: como fazer dela um motor para escrever e como impedir que ela também se torne um bloqueio justamente para criar a nossa literatura?
CS: Eliana, penso que cada pessoa precisa compreender como esses afetos primordiais como a fúria, por exemplo, atuam em si mesma. Tem gente que escreverá na força desse ímpeto, outras pessoas acharão formas de deixar a combustão acontecer, para depois racionalizar o processo e escrever. Existem outras alternativas possíveis e legítimas. A meu sentir, o mais importante é compreender o papel da fúria (quando ela existe) no processo particular de cada pessoa que vai decantá-la, transmutá-la e tratará de atribuir sentidos a ela no processo criativo.
Taiasmin Ohnmacht: No livro Só bato em cachorro grande, logo no início, a psicanalista Isildinha Baptista Nogueira aparece nos agradecimentos. Cidinha, qual a inspiração dessa psicanalista? E que diálogos seu texto estabelece com a psicanálise?
CS: Taiasmin, eu dedico o livro a Isildinha e também a outras mulheres negras fundamentais no planeamento do solo para a gente pisar e existir. Não conheço pessoalmente duas delas, a Isildinha Baptista Nogueira e a Denise Ferreira da Silva, mas, obviamente, me beneficio do impacto do pensamento delas sobre o Brasil e sobre nós. Não tenho bagagem significativa de leitura psicanalítica, apenas acho muito importante ponderar e mensurar as questões que nos estruturam como seres únicos, atravessados pelos grandes temas da humanidade, incluindo a política. Em relação à influência específica da Isildinha sobre mim, penso que ela tem uma nitidez de raciocínio rara, expressa em linguagem simples que contempla um pensamento muito sofisticado. Gosto demais também da forma como ela discute a política e suas interfaces com a nossa cabeça e emoções, digamos assim.
Fabiana Cozza: Em que momento mulheres negras engravidam dessa travessia que é tornarem-se borboletas?
CS: Fabi, o que mais me interessa no processo da borboleta trazido para o título do livro é a ideia de movimento e de transformação que empresta dinamismo à vida. A gente se transforma por instinto mesmo de sobrevivência, me parece. Por sua vez, tenho a sensação de que a consciência da fúria como algo transformador deve acontecer depois de algumas décadas vividas, como escrevo em um dos ensaios do livro, aquele que trata de como escrevi o título: “Talvez tenhamos alcançado o estágio da fúria como forma de libertação do cansaço das batalhas incessantes para nos livrarmos das imposições à nossa existência plena”.
Bianca Santana: Se você pudesse desmontar um único dispositivo de racialidade do mercado editorial, considerando os dispositivos de racialidade que estruturam o mercado literário, qual é hoje o mecanismo mais eficaz em limitar a circulação e o reconhecimento de escritoras negras?
CS: Bianca, creio que seja o dispositivo que quer nos transformar em um bloco monolítico, aquele que desconsidera nossas particularidades como seres criativos, que nos nega o direito à alteridade. Ele é extremamente eficaz porque até mesmo muitas de nós nos diluímos nos papeis de eternas educadoras da branquitude, de produtoras de uma literatura que tem papéis definidos pelos outros, como escrevi no ensaio “Literatura de autoria negra: expressão artística disponível para processos educacionais”: “Nos debates sobre literatura, é recorrente que autoras e autores negros sejam interpelados com perguntas que os forçam a explicar o que escreveram, e não como escreveram. Trata-se de uma imposição de decodificação do próprio fazer artístico, como se dissesse: ‘a arte de vocês tem, antes de tudo, uma função didática e militante, mais do que propriamente estética’. Há, portanto, um movimento que vem de fora para dentro (da branquitude para os negros). Por outro lado, existe também um movimento de dentro para fora. Muitas colegas negras acabam assumindo o lugar esperado e se transformam em eternas (re)educadoras da branquitude, que costuma tratar a literatura negra como exótica ou, no melhor dos casos, como ferramenta de letramento em certos temas. Algumas autoras passam a entender que este é um papel a ser cumprido: educar incansavelmente, em resposta aos requerimentos preguiçosos da branquitude Em ambos os casos de atendimento à pressão – de fora para dentro e de dentro para fora –, o resultado é o mesmo: a fruição negra é prejudicada”.
Geni Nuñez: Amada Cidinha, ao ler suas obras, é possível sentir e perceber o gosto que você tem pela escrita e o quanto esse prazer também nos contagia na leitura, seja pela qualidade dos debates, seja pela beleza com que são conduzidos. Suas palavras me lembram os artesanatos de nossos povos, cujo acabamento e finalização das peças são também o próprio início delas. Queria ouvir mais de você sobre esse processo de lapidação das palavras e sobre o seu burilamento literário em Borboletas furiosas.
CS: Geni, obrigada pelas boas palavras, sabemos a força que elas têm. O preâmbulo da sua pergunta contém a resposta da questão, ou seja, citando um pensador que você gosta muito, o Antônio Bispo: “Nós somos o começo, o meio e o começo”, não é assim? Um elemento central do Borboletas furiosas é a minha técnica de coser explicitando o movimento da costura, mostrando como teço cada ponto, como arremato as ideias na forma de pensamento vivo e dinâmico, expresso pelas melhores palavras que consigo garimpar. Os ensaios “Armadilhas da representatividade”, “Estranhas propostas de trabalho sem remuneração”, “Maria Firmina dos Reis e a solidão de estar à frente do seu próprio tempo”, “Sobre a natureza dos convites para publicação”, “Um estudo de título: o caso das borboletas furiosas” e “Ebó de boca” são revelações detalhadas dos meus processos particulares de urdidura do texto.
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