A linha como organismo vivo. A partir de uma arqueologia da linguagem do desenho e da escrita, O corpo da linha: notações sobre desenho, novo livro da autora e artista Edith Derdyk nasce de uma investida crítica contra usos e noções cristalizadas, e desafia a persistência do cânone nas práticas artísticas e educacionais.
Por Michelle Strzoda
Uma das mais representativas artistas contemporâneas das artes visuais e da palavra, neste livro inovador Edith Derdyk atribui 18 composições corporais à linha, como “linha-membrana” e “linha-performativa”, e classificados numa gramática da linha. Embora se enquadre num sistema, a linha tem corpo e é repleta de subjetividades.
Este é um livro orgânico, que comporta muitas trilhas possíveis. Com texto filosófico e poético, Derdyk faz interseções com suas experiências anteriores e também trabalhos de outros artistas. Para a composição dos textos e imagens de O corpo da linha, a autora dialoga com Flavio Motta, Mário de Andrade e Vilanova Artigas, além de Tim Ingold. Também são incorporadas as experiências de Fernand Deligny, as expressões sobre a linha de Deleuze e ressonâncias da poesia de Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto, bem como reflexões de artistas como Amilcar de Castro e Ingres.
Com a participação de um time de convidadas, Edith fará uma série de eventos de lançamento, sendo o primeiro em 23 de outubro em São Paulo, na Livraria Megafauna. Confira aqui a agenda dos primeiros encontros gratuitos com a autora.
Relicário: O corpo da linha é um livro cíclico, ao mesmo tempo que fragmentado. Um livro vivo, dinâmico. Você entende a linha como uma forma vivente. Como enxerga o DNA da linha?
Edith Derdyk: O desenho é a linguagem mais antiga que atravessa todo o arco civilizatório e transita em todas as áreas de conhecimento: arte, ciência, técnica. A linha – estrutura óssea do desenho – nasce do corpo, do gesto, do traço. A linha é extensão de todos os nossos sentidos, é resultante de um gesto que traça e se inscreve nas superfícies desde os tempos mais remotos. A linha é, então, cúmplice e testemunha de nossos percursos desde sempre. Ela nasce de uma conexão profundamente biológica, neurológica e, também, denota seu contexto sociocultural. Não tem como não pensar a linha como o local desse paradoxo – entre ser cíclica e ser fragmentada, ser singular e ser plural, ser a mais profunda manifestação de nossos corpos desejantes de se inscrever no mundo, de algum modo. O corpo da linha foi uma oportunidade para amalgamar minha escrita na vocação originária da linha em ser corpo e ser abstração, ao mesmo tempo. E demorou muito para agarrar esta escrita.
Relicário: Em suas memórias, você remonta à infância para os primeiros contatos com a linha, numa cena de rabiscar em uma lousa. Podemos dizer que esse gesto foi um começo do que seria mais tarde uma motivação para seguir em seu affair com a linha?
ED: A vantagem da passagem do tempo, nosso aliado e nosso inimigo, avançando sobre nossas vidas é ir costurando as memórias e projetando futuros, percebendo o que fica e o que escapa agora, no presente. Minhas primeiras memórias que emergem da infância de fato circulam ao redor da sensação de estar rabiscando numa lousa, aos 2 anos de idade. Veja – é uma memória sensorial, uma cena que ficou gravada na minha matriz corporal. São enigmas que refletem nossas mitologias pessoais: sabe-se lá por qual motivo o gesto do rabiscar, em si, preponderou como campo de sentidos sobre a necessidade representacional. O enfrentamento físico do gesto de desenhar me conectou às fabulações sobre a origem do desenho, à necessidade de investigar que a ação de produzir linhas são imantadas por uma memória coletiva e atávica.
Relicário: Apesar de parecer num primeiro momento, a linha nada tem de frágil. Você inclusive atribui formas, corpos, desejos à linha, como um sujeito. Nesse sentido, podemos dizer que a linha é a protagonista tanto do desenho quanto da escrita?
ED: Cada linha traçada carrega o tônus de uma época, denota uma subjetividade compartilhada. A linha é resultante desta ebulição que deixa vestígios e sinais por onde passamos. Poderíamos até formular ao contrário – a escrita é que nasce do desenho que nasce de um corpo que, ao inscrever marcas em superfícies, produz linhas que são signos visuais e verbais. Mais do que a função designadora, a linha carrega sensibilidades e percepções. São muitos os atributos sensoriais da linha além do contorno – aquela linha que se encerra nas formas fechadas, nossa herança clássica e cartesiana. A linha é plural porque somos singulares.
“Mais do que metáfora, a linha, em si, é o próprio desenho da vida, em incessante (per)curso.”
Relicário: No livro, você atribui 18 composições corporais à linha, como “linha-membrana” e “linha-performativa”, e classificados numa gramática da linha. Embora se enquadre num sistema, a linha tem corpo e é repleta de subjetividades. De certa forma, parece uma metáfora da vida. Como você enxerga essa complexidade da linha?
ED: A linha, elemento constitutivo do desenho, é estruturante para o pensamento e a percepção: é partitura coreográfica, já que você nomeou lindamente os agenciamentos da linha como “composições corporais”. A linha não é somente “coisa de lápis e papel”, esta linha subjugada somente ao referente, e sim produzida e imantada por todos os sentidos além do atributo visual. A linha, aqui compreendida como um corpo que transita nos tempos e nos espaços, marca presença na vida de muitos modos: nos fluxos, nas cartografias, nas manifestações da natureza, nas relações afetivas, nas dinâmicas sociais, nas intensidades dos desejos, enfim, no modo como organizamos e realizamos todas as nossas atividades. Mais do que metáfora, a linha, em si, é o próprio desenho da vida, em incessante (per)curso.
Relicário: Se você pudesse inserir a linha na linha do tempo da sua vida, em quais espaços-tempos diria que ela habita no passado, no presente e no futuro?
ED: O corpo da linha, como qualquer fato, evento, ação em nossas vidas, acontece sempre no presente – este grão da ampulheta temporal que está sempre em estado de passagem, carregando memórias imemoriais e se lançando num porvir, numa hipótese de futuro. Ou, quem sabe, ao contrário?
Artista, escritora e educadora nascida e radicada em São Paulo, Edith Derdyk realiza exposições coletivas e individuais desde 1981 no Brasil e no exterior. Com uma carreira marcada pela exploração da linha como elemento central em suas obras, Edith se destaca por sua abordagem multidisciplinar e investigação sobre o desenho e seus desdobramentos. Com uma obra que abrange desenhos, instalações, esculturas e livros de artista, Edith tem sua produção conhecida pela abordagem conceitual e poética que emprega, em que a linha se torna uma metáfora para o pensamento, o corpo e a memória. Muitos de seus trabalhos envolvem a repetição, a trama e a tensão, explorando as fronteiras entre o bidimensional e o tridimensional, entre o espaço e o tempo. Publicou livros como “Formas de pensar o desenho: gesto, memória, traço” e “Linha de costura: a construção do desenho”.
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COLUNA GABINETE DE CURIOSIDADES
“A LINHA É PLURAL PORQUE SOMOS SINGULARES”
Convidada Edith Derdyk
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Este é um livro orgânico, que comporta muitas trilhas possíveis. Com texto filosófico e poético, Derdyk faz interseções com suas experiências anteriores e também trabalhos de outros artistas. Para a composição dos textos e imagens de O corpo da linha, a autora dialoga com Flavio Motta, Mário de Andrade e Vilanova Artigas, além de Tim Ingold. Também são incorporadas as experiências de Fernand Deligny, as expressões sobre a linha de Deleuze e ressonâncias da poesia de Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto, bem como reflexões de artistas como Amilcar de Castro e Ingres.
Com a participação de um time de convidadas, Edith fará uma série de eventos de lançamento, sendo o primeiro em 23 de outubro em São Paulo, na Livraria Megafauna. Confira aqui a agenda dos primeiros encontros gratuitos com a autora.
Relicário: O corpo da linha é um livro cíclico, ao mesmo tempo que fragmentado. Um livro vivo, dinâmico. Você entende a linha como uma forma vivente. Como enxerga o DNA da linha?
Edith Derdyk: O desenho é a linguagem mais antiga que atravessa todo o arco civilizatório e transita em todas as áreas de conhecimento: arte, ciência, técnica. A linha – estrutura óssea do desenho – nasce do corpo, do gesto, do traço. A linha é extensão de todos os nossos sentidos, é resultante de um gesto que traça e se inscreve nas superfícies desde os tempos mais remotos. A linha é, então, cúmplice e testemunha de nossos percursos desde sempre. Ela nasce de uma conexão profundamente biológica, neurológica e, também, denota seu contexto sociocultural. Não tem como não pensar a linha como o local desse paradoxo – entre ser cíclica e ser fragmentada, ser singular e ser plural, ser a mais profunda manifestação de nossos corpos desejantes de se inscrever no mundo, de algum modo. O corpo da linha foi uma oportunidade para amalgamar minha escrita na vocação originária da linha em ser corpo e ser abstração, ao mesmo tempo. E demorou muito para agarrar esta escrita.
Relicário: Em suas memórias, você remonta à infância para os primeiros contatos com a linha, numa cena de rabiscar em uma lousa. Podemos dizer que esse gesto foi um começo do que seria mais tarde uma motivação para seguir em seu affair com a linha?
ED: A vantagem da passagem do tempo, nosso aliado e nosso inimigo, avançando sobre nossas vidas é ir costurando as memórias e projetando futuros, percebendo o que fica e o que escapa agora, no presente. Minhas primeiras memórias que emergem da infância de fato circulam ao redor da sensação de estar rabiscando numa lousa, aos 2 anos de idade. Veja – é uma memória sensorial, uma cena que ficou gravada na minha matriz corporal. São enigmas que refletem nossas mitologias pessoais: sabe-se lá por qual motivo o gesto do rabiscar, em si, preponderou como campo de sentidos sobre a necessidade representacional. O enfrentamento físico do gesto de desenhar me conectou às fabulações sobre a origem do desenho, à necessidade de investigar que a ação de produzir linhas são imantadas por uma memória coletiva e atávica.
Relicário: Apesar de parecer num primeiro momento, a linha nada tem de frágil. Você inclusive atribui formas, corpos, desejos à linha, como um sujeito. Nesse sentido, podemos dizer que a linha é a protagonista tanto do desenho quanto da escrita?
ED: Cada linha traçada carrega o tônus de uma época, denota uma subjetividade compartilhada. A linha é resultante desta ebulição que deixa vestígios e sinais por onde passamos. Poderíamos até formular ao contrário – a escrita é que nasce do desenho que nasce de um corpo que, ao inscrever marcas em superfícies, produz linhas que são signos visuais e verbais. Mais do que a função designadora, a linha carrega sensibilidades e percepções. São muitos os atributos sensoriais da linha além do contorno – aquela linha que se encerra nas formas fechadas, nossa herança clássica e cartesiana. A linha é plural porque somos singulares.
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