Um leitor não é formado apenas pelos livros que leu. Ele também é feito de espaços vazios, de lacunas. A biblioteca dos livros que não lemos é infinita. Mas ela tem a grande vantagem de ser portátil: podemos carregá-la para todo canto, ela não pesa nada. Já as leituras que fizemos estão sujeitas à lei da gravidade: ficam arquivadas nas estantes poeirentas da nossa casa, ou nas prateleiras muito gastas da memória. Se não for assim, elas voltam ao vazio, se tornam lacunas outra vez.
As lacunas são como espelhos que refletem as deserções e os caprichos de um leitor. Mas elas também são a imagem de uma utopia, ou a materialização de um desejo: em algum momento do futuro teremos lido tudo o que ambicionamos — os livros que acreditamos que poderemos amar um dia, ou que amamos antes mesmo de passar os olhos por eles.
“Lacunas: sobre amar os livros que não lemos” é uma reunião de ensaios que tratam das relações entre literatura e vida. Ou de como a vida — esse emaranhado sem sentido, esse nó que ninguém consegue desatar — só pode ganhar forma a partir das leituras: tanto as que fizemos e grudaram na gente, como as que jamais vamos fazer, e justo por isso não correm o risco de se apagar algum dia.
